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15/03/2017 14:50

ARTIGO: O Carnaval da Igualdade está chegando

"Pra que corda", foi apenas um dos signos desse carnaval, jingle entoado por Armandinho, que coincidiu com a decisão do governo em ampliar a participação do povo no Carnaval da Bahia. Mas vou aqui me dedicar à festa carnavalesca do povo, aquela criada nas ruas quando ainda existiam os clubes que promoviam diversos bailes privados.

Todos sabemos que o carnaval de rua é fruto da invenção popular que a indústria cultural se apropriou e virou dona. Antes, era coisa da malandragem, do lúmpen do operariado. Os blocos travestidos e os blocos de índios, inclusive, eram o início da construção do que vemos hoje. Os anos 70 e 80 foram de aprendizado e lições. O surgimento dos blocos afro são a consolidação desse processo de afirmação da cultura popular.

Nesta quadra, o empoderamento das mulheres norteou a participação popular no carnaval. Com o esforço do combate ao racismo, tivemos temas que fizeram desse carnaval um momento da inversão alegórica, onde os grupos vulnerabilizados foram protagonistas e donos da palavra de ordem: Racismo não! Respeite as mina! E tantas outras que o povo deu eco até para fora do estado.

No carnaval da Década Afrodescendente, as lições saíram de verdadeiras aulas públicas ofertadas pelo Bloco da Capoeira, onde Tonho Matéria falou de independência e civilidade. Lembramos, ainda, a justa reverência ao saudoso Mestre Didi já na entrega das chaves ao Rei Momo.

O carnaval do povo seguiu com os ensinamentos do Olodum, que amplamente propagada a Revolta dos Búzios. Depois abrir-se ao encanto do Cortejo Afro e seu respeito à diversidade. Fazer as leituras da tradição Alvorada do Gravatá de Nanã. Foi assim que também tomamos as lições do Soweto, lembrando as lutas de Nelson Mandela, o nome que nos inspira e denomina o nosso Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa.

O carnaval afirmativo compreendeu as lições da Banda Didá, a real realeza das quilombolas, e me levou ao ritual de passagem das Filhas de Gandhy num Pelourinho mágico, que logo após conectou-me ao Curuzu do Ilê Aiyê. Estive perdida entre a foliã, a irmã e a secretária. Fui mais irmã no embalo da Mudança do Garcia, no encontro com Arany Santana, Caetano e Gilberto Gil.

Neste carnaval, sem dúvidas, misturamos festa, cidadania e vigilância. Atuamos em sintonia com os órgãos do Sistema de Justiça, que integram a nossa Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa. Nesse olhar atento é que percebemos mais fortemente o racismo institucional na maior festa do planeta. Expresso na cor dos cordeiros, dos ambulantes, das crianças e adolescentes em situação de trabalho, das mulheres mais vulneráveis. Por isso insistimos que o nosso trabalho deve continuar fortalecendo as ações de promoção da igualdade racial.

Este foi o carnaval, portanto, da reflexão, da poesia, beleza estética e das canções dos blocos afro, de samba e afoxé que cantam esta mesma resistência e protesto. Festa, afirmação e valorização do legado da luta do povo negro. Exalando orgulho e autoestima na avenida. Que venham agora as datas emblemáticas das mulheres negras nos meses de março e julho. Sem apropriações indevidas, que tiram da população negra o seu protagonismo já historicamente negado.


*Publicado originalmente do site Bahia Notícias  em 14 de março de 2017.


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